Prática médica e repressão na prática: os médicos legistas e as torturas durante a ditadura militar brasileira (1964-1985)
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Faculdade de Direito de Vitoria
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Qual foi a importância do papel exercido pelos médicos legistas na repressão de
Estado ocorrida durante a ditadura militar brasileira (1964-1985)? Os caminhos
encontrados para a pergunta de pesquisa se desenvolvem na esteira das
incursões históricas dispostas no sentido de fornecer um instrumental que desse
conta tanto de abraçar as práticas médicas afeitas e contributivas ao período
ditatorial militar no Brasil quanto de fugir de eventuais homogeneidades
discursivas intencionadas em estabelecer uma espécie de “relato oficial”. Muito
embora apoiado majoritariamente nas descobertas do relatório da Comissão
Nacional da Verdade (CNV), dado a importância e completude desse documento
no contexto brasileiro, os estudos, apontamentos, fontes e depoimentos tanto
das vítimas nas auditorias militares quanto dos grupos que até hoje buscam a
penalização dos envolvidos nos crimes de torturas cometidas à época – a
exemplo do grupo Tortura Nunca Mais – justificam a participação dos médicos
legistas no regime autoritário e por isso também foram utilizados como parte da
metodologia interdisciplinar adotada. O estudo se justifica pela lacuna histórica,
sociológica e teórica, principalmente sob o viés dos direitos humanos
fundamentais, no que tange à participação de personagens específicos afeitos à
ditadura militar brasileira, para além, claro, dos militares; nesse sentido, os
médicos legistas, pouco explorados nessa orientação de literatura, foram
recuperados dentro da agenda de pesquisa proposta, dado seus destacados
índices de cooperação com o regime, conforme atestado pelos apontamentos da
CNV. Com relevo para os cabedais teóricos formulados pelo sociólogo Pierre
Bourdieu, bem como as disposições sobre o mal e sua tratativa enquanto fato
social, a discussão se situa no seio de um período controverso, que até hoje
polariza enfrentes e viúvos. Verificando de que forma a simbiose entre campo
político, jurídico, jornalístico e médico contribuíram para uma organização
institucional e social pautada no combate à (sempre iminente) “ameaça
comunista”, concluiu-se sobre como o habitus militar e a inculcação de um ethos
guerreiro e revolucionariamente comprometido nos funcionários de Estado foram
espécies de socialização que, em última medida, instanciaram disposições
determinantes para que médicos (sobretudo os legistas) pudessem participar do
descalabro humanitário ocorrido no período. Sem atribuir ao estruturalismo cego
e impositivo a responsabilidade pelas práticas de tortura, mas também
afastando-se das teorias que impelem à volição pura e independente dos
indivíduos o motivo chave das suas atitudes, a abordagem posiciona os arranjos
militares-institucionais como quadros de sentido tecnocraticamente
comprometidos que certamente auxiliaram nos desígnios autoritários da época.
Como resultados diretos da pesquisa, descobriu-se, também, que foi uma
categoria específica de médicos, os legistas, que de fato participaram das
torturas institucionais do período. Isso se explica pela tecnocratização e pelo
comprometimento ideológico-militar do governo e de seus funcionários, que
estruturaram os órgãos de perícia criminal de molde a salvaguardar interesses
no encampamento de “crimes oficiais” e na ratificação da legitimidade dos atos
de Estado. Além da influência que o ethos guerreiro teve nesse processo, a
expertise médico-profissional e a maneira pelo qual se dispõe o campo médico
foram importantes para que o governo militarizado reinserisse os crimes
praticados pelos agentes oficiais dentro do âmbito da legalidade formal,
pretendendo não só ter, com isso, afeição da opinião pública, mas sobretudo
para a conformação jurídica de um ordenado regime de exceção que tinha a
tortura como política de Estado
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PEREIRA, Bruno Pazini. Prática médica e repressão na prática: os médicos legistas e as torturas durante a ditadura militar brasileira (1964-1985). Orientador: Elda Coelho de Azevedo
Bussinger. 2021. 143 f. Dissertação (Mestrado em Direitos e Garantias Fundamentais) - Programa de Pós-Graduação em Direitos e Garantias Fundamentais, Faculdade de Direito de Vitória, Vitória, 2021.
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